12 de maio de 2009
Mais um desafio

Dêem uma vista de olhos pelas residências do operário e do pequeno empregado de Lisboa. Uma porcaria ignóbil nos quartos, as arcas sem roupa, o pé de meia sem economias. Intimamente, as famílias comem carapau, usam peúgas rotas, deixam a pequenada lazarar de escrófula e de imundície. Mas quase todos têm a sua sala, e andainas da moda com que disfarçar em público a sua condição modestíssima de vida.
[…] Porém, não é só pelos lados da economia e da moral que esta superfetação de luxo é deletéria.
Alguns imbecis a mais na penúria, alguns caloteiros a mais na falcatrua, tudo isto seria, no golpe de vista geral da vida portuguesa, mais pitoresco do que lastimável. Mas é que nos países pobres e imaginativos, o frenesi do brilhar leva o consumidor e o produtor à sofisticação de tudo. E isto é medonho!
6 de maio de 2009
Novos desafios: que livro sugere esta imagem?
Oh triste, triste! Meu senhor, não me ouves?
Sossega tua fúria, não a sigas.
Nunca conselhou bem: nunca deu tempo
De remédio a algum mal a ira. Sempre
Traz arrependimento sem remédio.
Ouve minha razão, minh’inocência.
Culpa é, senhor, guardar amor constante
A quem mo tem? se por amor me matas,
Que farás ao imigo? amei teu filho,
Não o matei. Amor amor merece;
Estas são minhas culpas: estas queres
Com morte castigar? em que a mereço?
5 de maio de 2009
SERMÕES ESCOLHIDOS
Padre António Vieira
Designado por Fernando Pessoa, na Mensagem, como «imperador da língua portuguesa», o Padre António Vieira, nasceu em Lisboa, em 1608, e foi ainda criança para o Brasil, onde viria a morrer em 1697.
Jesuíta, notabilizou-se como orador sacro e missionário. Desassombrado defensor dos índios e contrário à escravatura, foi perseguido pela Inquisição.
Os seus Sermões têm um ritmo facilmente captável pela audição e os conceitos mais importantes são acentuados quer pela repetição quer pelo contraste, sublinhando a força lógica da argumentação, solidamente baseada na sua cultura e experiência, de que Aníbal Pinto de Castro fala em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa:
«A sua cultura não ficou, por isso, no seu espírito, como simples acumulação de um saber morto ou apenas destinado a alimentar uma memória que lhe servisse de improdutiva erudição. Caldeou-se em íntima simbiose com o conhecimento directo, e tantas vezes doloroso, de uma realidade multímoda por ele vivida nas sucessivas situações e funções que foi assumindo ao longo da sua acidentada existência. Cultura e experiência fundem-se, pois, numa unidade espiritual e humana, graças a uma dinâmica capacidade de vibração emocional e uma imaginação que lhe transformava o pensamento num permanente exercício dialéctico pelo qual se confrontava com os outros e sobretudo consigo próprio, oscilando agonicamente entre a sua condição de português e a sua consciência de cidadão do mundo, entre o seu estado religioso e as limitações que ele não podia deixar de acarretar-lhe […}.»
ANTOLOGIA POÉTICA
Bocage
Bocage, poeta, nasceu em Setúbal, em 1765. Admitido na Marinha Real em 1783, três anos depois embarcou para Goa. Em 1789 desertou da guarnição de Damão, entusiasmado por aventuras amorosas. Desiludido, embarcou para Macau, de onde regressou a Lisboa, em 1790, levando uma vida de noitadas e boémia. Convidado, integrou a Nova Arcádia, adoptando o nome de Elmano Sadino, mas pouco tempo depois, nas suas Rimas, já satirizava o arcadismo dos seus colegas. Preso em 1797 por desregramento de costumes, foi sentenciado a receber doutrina dos Oratorianos. A partir de 1799, já em liberdade, passou a viver de traduções, revisões de provas, aperfeiçoamentos de obras alheias. Viria a morrer em 1805.
Esta Antologia ilustra bem o percurso poético de Bocage, a que Maria de Lourdes A. Ferraz se refere no artigo publicado em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa: «Os temas da poesia – amor, morte, glória e miséria do poeta – e os recursos formais, tanto quanto o gosto educado, a convenção, o artifício, revelam a sua formação neoclássica. Porém, tudo isto parece alterado por uma exacerbada consciência de si mesmo e pela paixão transbordante e frenética […], o que dá a alguma da sua poesia uma atmosfera romântica. Mas a aura romântica vem igualmente da insistência num individualismo libertário, numa certa libertinagem também, mas sobretudo, e mais explicitamente, num obsessivo egocentrismo: uma aguda consciência de que o “fado” não o transcende mas nasce dentro de si, da violência dos instintos, da original, porque diferente sensibilidade; por isso, só contra si tem de se revoltar.»
POESIAS
Mário de Sá-Carneiro
Mário de Sá-Carneiro, nascido em 1890, foi poeta, novelista e dramaturgo. Fez parte do grupo modernista da revista Orpheu, aproximando-se em particular de Fernando Pessoa, com quem manteve longa correspondência a partir de Paris, para onde foi em 1912 e onde virá a suicidar-se em 1916. Clara Rocha sublinha, em artigo publicado em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, que «como tem sido sublinhado em diversos estudos críticos, toda a obra de Sá-Carneiro é uma encenação do suicídio e a ele conduz». De uma estética simbolista e decadentista à explosão futurista, essa linha de continuidade pode observar-se nas suas Poesias, que incluem as compilações Dispersão (1914), Indícios de Oiro (publicada postumamente, em 1937) e os seus últimos poemas.
Clara Rocha refere um Mário de Sá-Carneiro «profundamente marcado pela aventura órfica, pelo magistério pessoano e pelos contactos parisienses, experimentou os vários -ismos do fim-de-século e da vanguarda, numa “bebedeira de ideias” que as cartas documentam com a emoção de um registo “a quente” do próprio processo criativo. O esteticismo decadentista, com a sua concepção do artista e a sua imagística e cromática inconfundíveis, e o Simbolismo, com o gosto pelo mistério, as sistenesias e o desejo de anulação da consciência, fundem-se na sua obra com as novas correntes: o Futurismo […], o Interseccionismo […], e o Sensacionismo […]. Mas não cabe em nenhum destes -ismos a ânsia de além de Mário de Sá-Carneiro […].»
Fernando Pessoa inicia assim um texto dedicado à memória de Mário de Sá-Carneiro: «Morre jovem o que os deuses amam».
ANTOLOGIA DO CANCIONEIRO GERAL
Garcia de Resende
O Cancioneiro Geral, publicado em 1516, é uma monumental compilação de composições poéticas de cerca de três centenas de diferentes autores(entre os quais se salientam nomes como os de Duarte de Brito, Diogo Brandão, D. João Manuel, conde do Vimioso, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro), reunidas por Garcia de Resende, secretário de D. Manuel I. O Cancioneiro compreende autores activos desde meados do século XV até à data da sua publicação.
Diz Aura Simões em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa que «Tal como os Jerónimos, o Cancioneiro Geral é um monumento manuelino, testemunho de uma época ostentatória e veículo de glorificação do poder real. Neste sentido, representou para a literatura nacional o que o mosteiro significou para a arquitectura: o corolário magnificente de uma era, a tentativa de condensar num objecto grandioso o estado de uma arte [...]».
Esclarece a mesma autora noutro ponto que: ««A verdadeira “sustançia” das composições do Cancioneiro Geral relaciona-se com os actos de convivência diária de um determinado grupo social, desde os eventos de grande espectáculo, até à etiqueta da civilidade, do requinte comportamental e mesmo até à vivência amorosa. A função correctiva que Resende atribui à expressão poética está directamente ligada à educação estética, à promoção do bom gosto e elevação do nível da aparência da corte».
POESIA E TEATRO
Sá de Miranda
«Para além do seu pioneirismo, que pela sua importância histórico-literária tantas vezes esgota a apreciação do autor, o poeta do Neiva merece ainda ser valorizado pelos traços inconfundíveis da sua escrita e dos valores que nela confluem. Assim, se em alguma da poesia em medida velha podemos reconhecer as marcas do discurso engenhoso que assinala a lírica palaciana de Quatrocentos [...], no que toca ao soneto, por exemplo, a construção lógica (quase silogística) remete para uma representação esquemática, onde as quadras representam quase sempre as premissas e os tercetos a conclusão. Num e noutro caso, porém, as marcas do discurso mirandino não se afastam muito do registo sentencioso e abstracto que aproxima a poesia da moral e da filosofia.»
José Augusto Cardoso Bernardes em Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa
22 de abril de 2009
Desafios
Há-de tomar o pregador uma só matéria, há-de defini-la para que se conheça, há-de dividi-la para que se distinga, há-de prová-la com a Escritura, há-de declará-la com a razão, há-de confirmá-la com o exemplo, há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades, há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários, e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar.
Desafios
Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
Des meus desgostos secretária antiga!
Desafios
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
21 de abril de 2009
Desafios
Senhora partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Desafios
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
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OS MEUS AMORES
Trindade Coelho
«A contribuição mais importante de Trindade Coelho para a literatura portuguesa é seguramente o volume de contos Os Meus Amores [...]. De facto, podemos considerar que, com essa obra, Trindade Coelho cultiva um género, o "conto rústico», que valoriza e dignifica com um apuramento significativo da técnica do conto. [...] Deve sublinhar-se, entretanto, que, para a extraordinária fortuna de Os Meus Amores, não contribuiu apenas a idealização da realidade rústica, a vivacidade dos diálogos, a representação da linguagem popular, o intuito moralizador: é que o idílio rural aparece ligado -- e numa ligação que o reforça -- à evocação da infância no "torrão natal", capaz de introduzir um tom de saudade e de total simpatia, que tudo envolve, desde as crianças aos jericos, num quadro de equilíbrio que, como o designou Óscar Lopes, configura um "realismo sadio" [...].»
Abel Barros Baptista em Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa
CRÓNICAS
Fernão Lopes
«Há nele uma vivência dos acontecimentos que empresta à sua prosa um colorido e uma intensidade que envolve o leitor, tornando-o testemunha das cenas que descreve. O historiador liga-se nele ao artista. Investigador cuidadoso do documento, procurando suprir as suas lacunas, visitando os cartórios do País e verificando as lápidas dos túmulos, para encontrar a data exacta, Fernão Lopes revela a sua probidade como cronista. Quando se lhe deparam versões discrepantes do mesmo acontecimento e não lhe é possível apurar a sua veracidade, transcreve-as, deixando que o leitor tire as suas conclusões.
(...) Mas ele é sobretudo um admirável descritor, seja de cenas de rua ou de interioridade doméstica, seja de cercos ou de batalhas. Dá na sua história um papel relevante ao povo, como motor dos acontecimentos, compreende os seus estados psicológicos e a sua capacidade de sacrifício, a sua ira e os seus excessos.»
Luís de Sousa Rebelo em Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa
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